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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Onde Os Fracos Não Tem Vez: compreendendo o inusitado

Texto referente ao post de Domingo, 28 de Setembro de 2008
Primeiramente, gostaria de ressaltar aqui que essa breve análise do filme Onde Os Fracos Não Tem Vez (No Country For Old Men) contém informações que, teoricamente, só deveriam ser lidas por quem já assistiu ao filme. Portanto, se você ainda não assistiu, vá a locadora de sua preferência e não perca mais tempo. Assista, leia o post, assista outra vez, e outra vez... Vocês saberão o porquê disso ao chegar no final do filme.

Magistral! Talvez seja essa a única palavra que consiga englobar toda a qualidade cinematográfica presente em Onde Os Fracos Não Tem Vez. Mas por que o filme levou a opiniões tão diversificadas sobre a sua qualidade? ? Confesso que da primeira vez que assistia a trama não consegui compreender a essência da mensagem transmitida. Agora, vejo que a resposta é simples. Esse é um daqueles filmes que simplesmente não devem ser vistos apenas esperando o “comum”. É preciso esperar o inesperado e procurar compreendê-lo. O filme é assim porque responde as suas devidas questões, desenvolvidas ao longo da trama, em detalhes que, para a maioria, passam despercebidos, incapacitando a compreensão do desfecho.

O filme é uma adaptação do livro No Country For Old Men (Onde os Velhos Não Tem Vez), do escritor norte-americano Cormac McCarthy. Tanto o livro quanto o filme possuem o mesmo nome. Porém, a tradução desse nome no Brasil, foi feita de forma errônea, comprometendo até mesmo o entendimento do filme em si. O roteiro acompanha o veterano da guerra Llewelyn Moss (Josh Brolin), que encontra uma maleta com 2 milhões de dólares em meio a um massacre ocorrido no deserto, devido a uma transação malsucedida. Com o objetivo de ficar com o dinheiro, Moss começa a ser perseguido por um psicopata assassino que atende pelo nome de Anton Chigurh (Javier Bardem) e, como se não bastasse, por bandidos mexicanos. Enquanto isso, o experiente xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) busca encontrar Moss antes que esse seja pego pelo mortífero Chigurh.

Ambientada no faroeste, a estória envolve o espectador com cenas de perseguição bem feitas e diálogos muito bem elaborados. A atuação simplesmente perfeita de Javier Bardem, é o que mais chama atenção dentro do enredo do filme. Uma maestria fantástica! No entanto, o grande embate do filme está no final. De fato, é um final difícil de ser compreendido, posto que a maioria não mantém o foco 100% voltado para a estória. Mas até nisso os irmãos Coen (diretores do filme) conseguiram ser impecáveis. Isso porque a história não trata propriamente do confronto entre “o mocinho” (Moss) e “o bandido” (Chigurh). Trata-se de algo que vai muito além de uma simples estória de ação. O protagonista real da estória era, nada mais nada menos do que o xerife Tom Bell. Sim, ele mesmo! Essa é uma das grandes jogadas que os Coen produziram na trama. Bell acompanhou a perseguição por fora, mostrando-se sempre cansado, até que acaba percebendo que seu tempo já passou. O nosso “old men” vê que não tem mais lugar nesse novo mundo cada vez mais violento. Ele batalha contra isso mas, no fim, acaba vendo, através do subconsciente (no caso o sonho) que seu tempo acabou. O velho xerife jamais conseguirá acompanhar o ritmo veloz com que a sociedade se degrada e percebe isso, enxergando que está inserido numa batalha já perdida.


Onde Os Fracos Não Tem Vez é o tipo de filme onde temos um estudo de personagens. São eles o foco principal da trama. Reparem na angústia de Tom Bell durante todo o filme e, principalmente, nos minutos finais, onde ele vê que não está mais inserido naquele “novo mundo”. É o exemplo de filme onde você tem que usar da mente para entender a verdadeira mensagem transmitida. Um filme digno de final inesperado. Não, não temos final clichê onde herói e bandido duelam numa batalha eletrizante. Nada disso vai se encontrar assistindo a essa trama. Há apenas uma quebra de elementos já estereotipados em filmes que envolvem o bem e o mal. E há sim uma incapacidade do público em enxergar as sutilezas do filme. A maioria das respostas está nos diálogos e não nas cenas de ação. Interpretar um diálogo parece muito mais difícil do que interpretar qualquer outra imagem e, nesse caso, interpretar é imensamente necessário.

A trama, por si só, compreende uma formidável obra cinematográfica. Um triunfante final e uma espetacular adaptação de uma estória, no mínimo, aberta a interpretações. Sem dúvidas, uma das mais brilhantes representações de todos os tempos. Por isso, se você ainda se pergunta quem ficou com o dinheiro, quem morreu, quem sobreviveu e o porquê desse incrível final, assista Onde Os Fracos Não Tem Vez quantas vezes for preciso e descubra como pode ser incrível compreender o que antes parecia incompreensível.