Magistral! Talvez seja essa a única palavra que consiga englobar toda a qualidade cinematográfica presente em Onde Os Fracos Não Tem Vez. Mas por que o filme levou a opiniões tão diversificadas sobre a sua qualidade? ? Confesso que da primeira vez que assistia a trama não consegui compreender a essência da mensagem transmitida. Agora, vejo que a resposta é simples. Esse é um daqueles filmes que simplesmente não devem ser vistos apenas esperando o “comum”. É preciso esperar o inesperado e procurar compreendê-lo. O filme é assim porque responde as suas devidas questões, desenvolvidas ao longo da trama, em detalhes que, para a maioria, passam despercebidos, incapacitando a compreensão do desfecho.
O filme é uma adaptação do livro No Country For Old Men (Onde os Velhos Não Tem Vez), do escritor norte-americano Cormac McCarthy. Tanto o livro quanto o filme possuem o mesmo nome. Porém, a tradução desse nome no Brasil, foi feita de forma errônea, comprometendo até mesmo o entendimento do filme em si. O roteiro acompanha o veterano da guerra Llewelyn Moss (Josh Brolin), que encontra uma maleta com 2 milhões de dólares em meio a um massacre ocorrido no deserto, devido a uma transação malsucedida. Com o objetivo de ficar com o dinheiro, Moss começa a ser perseguido por um psicopata assassino que atende pelo nome de Anton Chigurh (Javier Bardem) e, como se não bastasse, por bandidos mexicanos. Enquanto isso, o experiente xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) busca encontrar Moss antes que esse seja pego pelo mortífero Chigurh.
Ambientada no faroeste, a estória envolve o espectador com cenas de perseguição bem feitas e diálogos muito bem elaborados. A atuação simplesmente perfeita de Javier Bardem, é o que mais chama atenção dentro do enredo do filme. Uma maestria fantástica! No entanto, o grande embate do filme está no final. De fato, é um final difícil de ser compreendido, posto que a maioria não mantém o foco 100% voltado para a estória. Mas até nisso os irmãos Coen (diretores do filme) conseguiram ser impecáveis. Isso porque a história não trata propriamente do confronto entre “o mocinho” (Moss) e “o bandido” (Chigurh). Trata-se de algo que vai muito além de uma simples estória de ação. O protagonista real da estória era, nada mais nada menos do que o xerife Tom Bell. Sim, ele mesmo! Essa é uma das grandes jogadas que os Coen produziram na trama. Bell acompanhou a perseguição por fora, mostrando-se sempre cansado, até que acaba percebendo que seu tempo já passou. O nosso “old men” vê que não tem mais lugar nesse novo mundo cada vez mais violento. Ele batalha contra isso mas, no fim, acaba vendo, através do subconsciente (no caso o sonho) que seu tempo acabou. O velho xerife jamais conseguirá acompanhar o ritmo veloz com que a sociedade se degrada e percebe isso, enxergando que está inserido numa batalha já perdida.
Onde Os Fracos Não Tem Vez é o tipo de filme onde temos um estudo de personagens. São eles o foco principal da trama. Reparem na angústia de Tom Bell durante todo o filme e, principalmente, nos minutos finais, onde ele vê que não está mais inserido naquele “novo mundo”. É o exemplo de filme onde você tem que usar da mente para entender a verdadeira mensagem transmitida. Um filme digno de final inesperado. Não, não temos final clichê onde herói e bandido duelam numa batalha eletrizante. Nada disso vai se encontrar assistindo a essa trama. Há apenas uma quebra de elementos já estereotipados em filmes que envolvem o bem e o mal. E há sim uma incapacidade do público em enxergar as sutilezas do filme. A maioria das respostas está nos diálogos e não nas cenas de ação. Interpretar um diálogo parece muito mais difícil do que interpretar qualquer outra imagem e, nesse caso, interpretar é imensamente necessário.
A trama, por si só, compreende uma formidável obra cinematográfica. Um triunfante final e uma espetacular adaptação de uma estória, no mínimo, aberta a interpretações. Sem dúvidas, uma das mais brilhantes representações de todos os tempos. Por isso, se você ainda se pergunta quem ficou com o dinheiro, quem morreu, quem sobreviveu e o porquê desse incrível final, assista Onde Os Fracos Não Tem Vez quantas vezes for preciso e descubra como pode ser incrível compreender o que antes parecia incompreensível.